Como o Casal Discute Diz Muito Sobre o Futuro da Relação
Como uma metáfora poderosa pode fazer a diferença na compreensão do casal sobre seu estilo de lidar com conflitos
Quando um casal entra em um conflito, a forma como tenta resolvê-lo pode aproximá-los ou aumentar ainda mais a distância entre eles. Muitas vezes, sem perceber, o casal segue padrões de resposta que acabam repetindo os mesmos ciclos de brigas e frustrações. E, segundo a terapia de casal, existem algumas formas principais de lidar com essas situações, cada uma com impactos diferentes na relação.
1. Quando o conflito vira um campo de batalha
Aqui, o casal entra na discussão de forma intensa, muitas vezes deixando de lado o problema real e transformando o momento em um embate. Críticas, acusações e ataques tomam o lugar do diálogo, e o objetivo deixa de ser resolver e passa a ser vencer a discussão. Esse padrão costuma aumentar o desgaste emocional e, com o tempo, transforma o relacionamento em um ambiente de competição, onde cada um está tentando provar que tem razão, em vez de buscar um caminho que faça sentido para os dois.
2. Quando um dos dois (ou os dois) fogem do conflito
Essa é a dinâmica em que um dos parceiros, ou os dois, evita qualquer tipo de confronto. Pode ser através do silêncio, da fuga física (sair do ambiente) ou do distanciamento emocional, onde o casal evita discutir temas difíceis. Às vezes, um tempo para acalmar as emoções pode ser necessário. Mas, quando esse padrão se repete constantemente, o casal perde a oportunidade de resolver os problemas e criar um espaço de segurança emocional na relação.
3. Quando um dos dois sempre cede
Aqui, um dos parceiros prefere abrir mão de sua opinião para evitar discussões. Pode ser por medo do confronto, por uma sensação de impotência ou até por não se sentir à vontade para expressar suas necessidades. Essa postura pode parecer uma solução no momento, mas, ao longo do tempo, gera frustração, ressentimento e uma perda de identidade dentro da relação. O parceiro que se anula começa a se sentir desconectado, e isso pode enfraquecer o vínculo do casal.
4. Quando o casal negocia e busca soluções juntos
Essa é a abordagem mais saudável para lidar com conflitos. O casal consegue expressar suas emoções, ouvir o outro e buscar uma solução que funcione para ambos. O objetivo não é ganhar a discussão, mas encontrar um equilíbrio onde cada um se sinta respeitado e considerado. Nem sempre será possível chegar a um consenso perfeito, mas quando há espaço para diálogo e disposição para encontrar caminhos juntos, a relação se fortalece.
Nem sempre o casal consegue negociar de imediato…
Dependendo da dinâmica do relacionamento, pode ser que o casal ainda não esteja pronto para resolver os conflitos de forma construtiva. Se há um histórico de brigas intensas, pode ser necessário aprender a regular as emoções antes de conseguir conversar de maneira saudável. Casais que seguem um padrão de ataque e submissão, por exemplo, podem passar por fases de inversão de papéis antes de encontrar um equilíbrio. Essas mudanças fazem parte do processo de ajuste até que os dois consigam estabelecer um modelo mais seguro de comunicação. O mais importante é que o casal consiga identificar o que acontece na relação e, aos poucos, mudar esses padrões.
E no caso dos casais que chegam na terapia?
• Como eles costumam lidar com os conflitos?
• Esses padrões têm ajudado ou prejudicado a relação?
• O que pode ser feito para tornar os momentos de conflito mais construtivos?
Na terapia de casal, esses padrões são observados para que o casal aprenda a transformar os conflitos em oportunidades de crescimento. E um jeito simples de ajudá-los a entender a dinâmica do relacionamento é trazendo a metáfora de Rubem Alves: tênis ou frescobol?
Tênis x Frescobol: qual jogo o casal está jogando?
Rubem Alves usou uma metáfora brilhante para os relacionamentos: há casais que jogam tênis e outros que jogam frescobol. Abaixo, a crônica na sua íntegra:
Tênis ou frescobol por Rubem Alves
Depois de muito meditar sobre o assunto, conclui que os casamentos são de dois tipos: há casamentos do tipo tênis e do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de vida longa.
Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: “Ao pensar sobre a possibilidade de casamento, cada um deveria fazer a seguinte pergunta: Crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?” Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.
Nos contos das “Mil e uma noites”, Sherazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam com a morte, como no filme “O Império dos sentidos”. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais podia dizer através dele, Sherazade o ressuscitava pela magia da palavra. Começava com uma longa conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra é a sexualidade sob a forma da eternidade; é o amor que ressuscita sempre depois de morrer. Há carinhos que se fazem com o corpo e carinhos que se fazem com as palavras. Não é ficar repetindo o tempo todo “eu te amo, eu te amo”.
O tênis é um jogo feroz. Seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva que indica seu objetivo sádico, que é cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar, porque o adversário foi colocado fora do jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza do outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la e não há ninguém derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha.
Como trazer essa mudança para o dia a dia do casal?
• Identificando se os conflitos são tratados como disputas ou como oportunidades para alinhar expectativas
• Incentivando a troca de ataques por conversas voltadas para a escuta e compreensão
• Mostrando que, num relacionamento, quando um perde, os dois perdem. Mas quando ambos se apoiam, a relação se fortalece
Se um casal tem o hábito de discutir como se estivesse jogando tênis, isso não significa que o relacionamento está condenado. Pequenas mudanças na comunicação já podem transformar a dinâmica. E tudo começa por reconhecer qual jogo eles estão jogando.
Essa metáfora com a crônica do Rubem Alves é particularmente poderosa pra ajudar os casais a compreenderem que, dependendo do “jogo” que eles escolherem, eles estarão fortalecendo ou debilitando o seu relacionamento.
E você? Aplica essa metáfora na terapia de casal? Ou em seu relacionamento?